O dia em que chorei pedalando

Terças e quintas meu treino de ciclismo é quase que sempre em casa (salvo exceções de feriados ou férias). Costumo deixar a TV ligada na reprise do Sportscenter brasileiro que passa cedo da manhã na ESPN. Dificilmente fico olhando para tela, a TV fica no mudo e eu com meus fones. Entretanto de vez em quando dou umas olhadas rápidas. Nesta terça-feira acabei por acaso pegando uma reportagem especial quase desde o começo. Logo a reportagem chamou a minha atenção e, como que por sorte, o treino era contínuo e não intervalado, fiquei assistindo enquanto pedalava. A reportagem especial tratava de duas (três, mais a frente dá para entender) pessoas. Dois jovens de um bairro pobre de Cleveland nos Estados Unidos. Pobreza, orfandade, problemas de drogas na família, dentre outros. Essa era a realidade desses dois jovens. 

Agora alguns detalhamentos. Um deles, Dartanyon Crockett, é considerado legalmente cego. Possui uma doença que causa uma miopia extrema que ele mal conseguia, por exemplo, enxergar os traços faciais do repórter que o entrevistava alguns metros à frente. O outro, Leroy Sutton, quando criança enquanto caminhava na beira do trilho do trem, tropeçou e teve as duas pernas esmagadas e posteriormente amputadas no hospital. 

A terceira pessoa, que detalho um pouco mais para frente, é a produtora do canal ESPN americano - Lisa Finn. 

Vou tentar não me alongar muito no texto (meio difícil mas quem não puder ler inteiro veja o link no final do post), o resumo da história é mais ou menos esse.

Os dois jovens tinham grandes dificuldades na vida pessoal, porém chamavam a atenção na escola nos campeonatos de luta. Os dois lutavam e, além disso, eram unidos como irmãos de sangue. O vínculo ficou muito forte em razão das dificuldades que os dois possuíam. O que eles fizeram para se ajudar? O que enxergava ajudava o que caminhava. A cena mais comum de se ver no colégio era Sutton nas costas de Crockett. Ele ajudava com seus olhos e era ajudado com as pernas do "irmão". Chegavam nos ginásios assim, iam para as salas de aula assim, foram para a formatura da "High School" assim. Neste período de escola volto à terceira pessoa citada (Lisa Finn). Ela ficou sabendo dessa história e foi produtora de uma reportagem sobre estas duas incríveis pessoas. 

No momento que os jovens se formaram no colégio veio o dilema, não tinham dinheiro para frequentar uma universidade. No que a reportagem foi mostrada e eles ficaram conhecidos houve um uma enxurrada de ligações/e-mails/tweets para ESPN/Lisa Finn com o intuito de ajudá-los. Gente disposta a doar dinheiro, pagar faculdade, dentre outras coisas ainda mais incríveis. Em questão de menos de um mês já havia US$ 50 mil em doações. Eis então que "a terceira" pessoa tomou uma ação inusitada e grandiosa. Decidiu largar o cargo na ESPN e se dedicar a ajudar os jovens. Segundo a alegação da jornalista ela não poderia largar esses jovens naquele momento. Muita gente os abandonou ao longo da vida. Ela não poderia ser mais uma a fazer isso com eles. Ela falou então com um advogado que a ajudou a organizar a questão das doações para que os dois pudessem ter uma vida digna. A partir daí os dois seguiram caminhos um pouco diferentes. Enquanto Sutton foi fazer faculdade de design videogames, o outro - Dartanyon Crockett - decidiu que queria continuar no esporte. Começou a lutar judô e foi para o Colorado para participar então da equipe paralímpica dos EUA. Foi galgando etapas, aprendendo, (ainda) lutando e foi em frente enquanto seu irmão seguia na faculdade e se tornou pai. Crockett decidiu então que queria disputar os Jogos Paralímpicos de Londres (2012). Continuou treinando e, mostrando uma força de vontade incrível, conseguiu a vaga nas seletivas nacionais. 

Só por esses feitos esses jovens mereciam todos os méritos e homenagens. Mas a história ainda não terminou. Enquanto Sutton era determinado como estudante e pai, pois queria dar uma vida que ele não teve para sua filha, Crockett foi para Londres disputar os jogos. Lisa cuidava de tudo, era uma mãe fantástica. Sutton foi de surpresa para Londres reencontrar o irmão depois de um bom tempo, um reencontro emocionante. 

Crockett começou seu caminho nos jogos. Ganhou até que chegou na semifinal. Lá foi surpreendido e perdeu. Restava então a disputa pela medalha de bronze. Um jovem que já havia tomado tantos tombos na vida poderia ter desistido depois de mais desse mas não, foi lá e ganhou a luta e a medalha de bronze. Já na zona mista viu e abraçou Lisa Finn. Não cabia em si. Aliás, nenhum cabia em si assim como o irmão Sutton. 

No dia seguinte os três passeavam por Londres. Crockett com a medalha no peito. A medalha que não representa uma vitória no esporte para esses dois jovens. Representa a vitória na vida. Uma vida cheia de dificuldades que os dois conseguiram vencer com a ajuda de uma mulher que largou sua carreira e dedicou menos tempo a sua própria família em prol dessa causa. Um exemplo de atitude. 

Pelo que andei lendo haverá (ou houve, pois pode já ter passado nos EUA) uma continuação da história para mostrar como está a vida desses jovens.

Para quem se interessar um pouco mais, no site da ESPN Brasileira tem a reportagem completa. Dedique vinte minutos da sua vida para ver isso. Tenho certeza que não irá se arrepender.

Sutton,  Crockett e Lisa

O resumo do resumo...   enquanto pedalava foi impossível conter a emoção. A história dessas três pessoas é comovente, é inspiradora e nos faz acima de tudo não reclamar das pequenas dificuldades que temos. Nos faz acreditar no ser humano, mesmo que diariamente a gente seja tentado a não acreditar pelas notícias que vemos de parte a parte.

Comentários

  1. Pois... Quando assistimos a reportagens destas é que tomamos consciência o quão abençoados somos na vida! Agradeço todos os dias por isso.
    Abraço e bons treinos!

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    1. Esse tipo de atitude, de parte a parte, é que dá sentido à vida.
      Abração!

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  2. Milton, é por causa de posts assim que eu costumo me esforçar para poder ler tantos blogs de corrida que tem por ai, eu sei que sempre tem alguém melhor que eu que pode me mostrar o que eu ainda não vi e me dar uma perspectiva diferente do esporte que eu prático e aprendi a amar.
    Sabe, o que eu tenho visto tanto, é a imprensa sensacionalista, aquele que expõe a dificuldade do ser humano para obter audiência e isso me corta o coração, depois da entrevista, depois de sensibilizados de conseguir as lágrimas e a humilhação as câmeras são desligadas e a vida segue, e enquanto muitos de nós vira o rosto e se protege ao não encarar a realidade do outro para evitar o próprio sofrimento por pena de si mesmo, se deparar com alguém que tinha feito seu trabalho já tinha cumprido sua missão e inclusive ajudado financeiramente com a obtenção de auxilio para garantir um futuro para esses meninos que é capaz de largar uma vida privilegiada para aderir a uma causa maior do que ela, maior do que os dois envolvidos é algo como poder acreditar na humanidade sem ser piegas mas é o que parece aos meus olhos.
    Essa Lisa ganhou meu coração e minhas orações, que pessoa linda. Espero que existam mais dela por ai!
    Se você chorou imagina a pessoa aqui que é considerada a mais chorona do mundo, rsss...
    Adorei, obrigada por compartilhar.
    Ju

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    1. Legal saber que pensa parecido Ju. É incrível mesmo e esse vídeo nos faz pensar justamente isso. Qual história dessas 3 é mais impressionante? Difícil dizer mas o que essa mulher fez é de deixar qualquer um com lágrima nos olhos.
      Eu que agradeço a leitura. Fique à vontade para compartilhar se quiser.
      Bjs

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  3. Muito bacana a história, Milton. Seu post certamente chamou a atenção para essa história, que provavelmente muitos ainda desconheciam (eu mesmo ainda não tinha visto essa reportagem da ESPN).

    Aposto que, vendo uma reportagem dessas, a sessão de pedal até deve ter rendido mais. :)

    Abraços.
    Brunno - http://movidoaendorfina.wordpress.com

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    1. Pois é Brunno. Com certeza saiu melhor. Nessa hora não tem como nos sentirmos mais motivados vendo algo tão bonito. Também desconhecia essa história.
      Abração!

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