O Décimo Primeiro Nome - Blog do Max

Hoje estou publicando o post do amigo Max (Kona Trishop) de Curitiba que recentemente sofreu um acidente treinando ciclismo nos arredores de Curitiba. Só peço que cada um reflita um pouco em cima do excelente texto dele, seja você um triatleta, um ciclista, corredor, um nadador, enfim, um atleta. 

Aproveito para, mais uma vez, desejar a plena recuperação do Max!


O Décimo Primeiro Nome

Mario Baena. Ana Lidia Borba. Gilvan Ferreira. André Pinto. Eduardo Eusébio. Marcelo Godoy. Everson Feix. Fabio Dippe. Luiz Otávio Duarte. Rodrigo Lucianetti.

Essa pequena porém significativa lista contém nomes de dez atletas que conheço ou conheci pessoalmente e que tiveram suas trajetórias no esporte interrompidas, temporária ou permanentemente, em função de colisão com veículos.  Não cabe aqui o julgamento da responsabilidade - quem foi inocente ou culpado dos acidentes -  nem a análise das circunstâncias. Cabe apenas o  fato de que todos eles acabaram pagando um preço - alto demais em alguns casos - pela opção de praticarem seu esporte em vias públicas por onde também circulam carros, ônibus e caminhões.

Desses dez, três acabaram falecendo no próprio local do acidente. Os sete restantes, sem exceção, voltaram a pedalar após recuperar-se. E dentre esses sete, pelo menos três, que eu tenha conhecimento, passaram pela situação de atropelamento por veículo mais de uma vez. Como conclusão imediata, temos que o ciclismo, que por natureza já é um esporte perigoso, quando levado para acostamento de autopistas torna-se, sob uma certa ótica, mortal. E como conclusão secundária, temos que o ciclista, de maneira geral, vai tornando-se amortecido em relação a esse perigo (ou seja, deixa de senti-lo, embora ele esteja presente).

Cada uma dessas dez histórias me influenciou de maneira particular e contribuiu para construir uma conduta que norteou a minha própria prática do ciclismo ao longo dos últimos anos. Passei a evitar áreas urbanas, horários e dias de movimento intenso, saídas com grupos de muitos atletas. Nada de manobras radicais no acostamento, nada de truques de duble. Saia sozinho, de madrugada, por acostamentos limpos e estradas praticamente vazias. "Se me acontecer alguma coisa, será fatalidade". Esse vem sendo meu credo, meu discurso para a família, minha vacina diante do medo que às vezes chegava sorrateiro. Não tornei-me um um amortecido e sim um vacinado.

E no entanto - apesar de todas as precauções, cuidados e discursos - meu nome, invisível para os outros mas em letras garrafais e muito visível para mim, tornou-se parte dessa lista. Sem querer, tornei-me o décimo primeiro nome. A partir de uma fração de segundo na estrada que tornou-se uma semana no hospital e que hoje faz parte de uma longa sucessão de semanas de reabilitação, minhas convicções, certezas e opções a respeito da validade de encarar as rodovias para praticar um esporte que me dá imenso prazer vem sendo postas à prova. Afinal, uma coisa é olhar para uma lista com dez nomes de amigos e tirar conclusões a partir das experiências vividas por eles. Outra, completamente diferente, é olhar para o seu nome na mesma lista e viver uma experiência semelhante à deles.

No meu caso em particular, não há culpa nem remorso. Como sempre fui consciente dos riscos e procurei mitigá-los, posso olhar para trás e dizer que tratou-se, realmente, de uma fatalidade. O fato de ter sobrevivido não me qualifica como herói, assim como o de ter sido colhido por um caminhão não me torna vítima. Heróis foram e vem sendo meus familiares, que foram deslocados de suas rotinas para me ajudar a pagar o preço da minha escolha; e vítima foi o motorista do caminhão, que de uma hora para outra viu um ciclista caído na pista bem á sua frente e fez o que pode para evitar uma tragédia. Acho que no que me diz respeito,  "sobrevivente" é uma boa qualificação. Cai para o lado errado do acostamento, fui atropelado por um caminhão e sobrevivi, aparentemente sem sequelas físicas maiores, para contar uma história, aprender certas lições e recomeçar uma nova história.

A parte que se refere a "contar uma história" está encerrada. A minha já foi contada e não será, ao menos por mim, recontada. Nunca considerei ossos quebrados como troféus nem acidentes como eventos memoráveis. A última lembrança desse evento será contada pelas cicatrizes, e mais nada.

Já no que diz respeito a aprender lições relacionadas à segurança na estrada, mesmo correndo o risco de parecer arrogante, não vejo nenhuma que o acidente tenha me ensinado que eu já não soubesse anteriormente. O que aconteceu não poderia ter sido evitado por nenhuma manobra ou atitude da qual eu seja consciente. Aliás, poderia sim - poderia ter sido evitado se eu tivesse optado por ficar em casa naquela manhã, ou se praticasse outro esporte. E a partir dessa realização - a de que a única maneira de evitar o que aconteceu seria não ter estado naquela lugar fazendo o que eu fazia - saímos do campo de lições aprendidas e entramos na seara de "recomeçar uma nova história".

A decisão de voltar a pedalar nas mesmas circunstâncias que provocaram o meu e tantos outros acidentes - ou seja, de pedalar no acostamento de uma rodovia estadual ou federal - envolve doses de razão e emoção extremamente delicadas de se manipular. Não se trata simplesmente de cair do cavalo, recuperar-se e voltar a montar o mais rápido possível. Isso demanda apenas tempo e vontade, e no meu caso os dois são abundantes.

Trata-se para mim, também, de olhar para cada membro da família afetado emocionalmente pelo que houve - pai, mãe, esposa, filhos, parentes próximos - e esperar que eles estejam prontos e dispostos a passar novamente e com a mesma abnegação por outra experiência semelhante. Trata-se de esperar, além disso, que as pessoas que trabalham comigo sejam capazes de realizar o meu trabalho além de continuarem realizado o delas, mais uma vez. E além de que tudo, trata-se de acreditar que o poder divino que me concedeu o direito de nascer novamente, sadio de corpo e mente, estaria disposto a fazer o mesmo ainda outra vez. Sob essa ótica, o grande obstáculo a ser vencido não é o medo (de voltar a pedalar na estrada) mas o egoísmo (de voltar a pedalar e submeter terceiros às consequências).

Talvez, alguém argumente, esse seja um cenário pessimista demais. Talvez para cada membro da minha lista podem ser citados outros dez, em outra lista de cem nomes,  que nunca foram atropelados ou machucaram-se com gravidade, e outros tantos que nunca serão atropelados ou irão machucar-se. Talvez  o quadro que eu esteja pintando agora tenha tons de vermelho e preto em excesso, modificando uma paisagem que normalmente tem mais azuis e verdes e brancos. Talvez.

Mas o fato permanece que sendo a minha experiência pessoal e intransferível, as minhas decisões a partir dela não poderão jamais ser plenamente assimiladas ou transferidas a terceiros. Eu não posso, nem pretendo, fazer do meu caso um divisor de águas para aqueles que o acompanharam. Ele será um divisor de águas na minha vida, nada mais. Na dos outros, pode ser no máximo um nome em uma lista com outros nove.

Por outro lado, sei também que a minha opinião a respeito de tudo o que houve, uma vez tornada pública, pode servir para reflexão alheia e, a partir daí, se não impedir um acidente, pode trazer para a vítima o conforto de que ela fez tudo o que era possível para que esse mesmo acidente nunca acontecesse. Portanto, o que tenho de realmente importante a dizer para quem pedala com qualquer frequência que seja em rodovias federais ou estaduais é o seguinte:

- Você faz parte de um grupo de risco. E fazer parte desse grupo significa que acidentes semelhantes ao meu, ou aos envolvendo meus dez amigos, não são uma questão de "se" - são uma questão de "quando" e "com quem". Um dia, mais cedo ou mais tarde, novamente alguém vai cair do lado errado da pista ou ser atingido por um motorista bêbado ou demente. O atleta que tiver essa consciência - e que for transparente o suficiente com sua família para transmiti-la a eles - está, no meu entendimento, verdadeiramente preparado para a enfrentar as consequências da sua opção (ou falta de opção) de treinar no acostamento de rodovias.

O inadmissível - um autêntico crime, na falta de termo ainda pior - é levar para a estrada, ou deixar que vá para a estrada, um atleta novato sem antes dar-lhe orientações suficientes para que essa consciência se desenvolva. Seja na forma de manuais de segurança, palestras, dicas informais ou conselhos de pé de ouvido; seja pela pessoa que vende a bicicleta, pelo técnico, pelo companheiro mais experiente ou pela mídia especializada, alguma coisa precisa ser dita e repetida. Não amanhã, não semana que vem. Sempre.

Apenas por segurança - para evitar que um novato, ou mesmo alguém mais experiente porém sem orientação por perto, possa cair vítima da falta de exemplos que lhe despertem a consciência - fica aqui um exercício alternativo: pense em uma lista de dez nomes, de preferência de amigos ou conhecidos, que tenham sido envolvidos em acidentes na estrada. Se não achar dez conhecidos, pode colocar outros no lugar - profissionais, alguém cuja história um outro alguém lhe contou. E se mesmo assim não fechar a lista com dez, pode pegar emprestado da minha. Pode até - custo a acreditar nisso ainda - colocar o meu nome.

Finda a lista, imagine que o seu nome será o décimo primeiro. Você não sabe como, nem quando. Não sabe se irá viver para contar sua  história. Não sabe se será o primeiro acidente de vários.  A única coisa que você pode saber é que se diante de todo esse cenário hipotético-apocalíptico, mesmo assim o magnetismo do céu azul brilhando de manhã cedo, a camaradagem dos longos pedais, o vento no rosto e o silêncio de um vôo em alta velocidade montanha abaixo continuarem fazendo com que a paixão seja maior que o medo, então o acostamento lhe pertence.

Se a resposta for outra qualquer, procure um novo lugar para treinar ou comece a pensar em um esporte alternativo.

Comentários

  1. Só te digo uma coisa, Milton, pedalar é um esporte perigoso!
    Brincadeira!
    Agora falando sério, não consigo imaginar o que é ser atropelado por um caminhão e ainda sobreviver. É muito surreal! Estimo as melhoras ao teu amigo.
    Abraço,
    Dani.
    Blog Dani Corredora

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sem dúvidas é bem perigoso Dani. O que acontece é como ele descreveu, infelizmente a gente vai ficando "amortecido" dos riscos. Não sei se lembra mas uma semana antes do Ironman eu caí de bike. Meu acidente foi praticamente igual ao dele. Toquei na roda de um amigo e fui para o chão. Também caí no meio da estrada. Para minha sorte eu estava a menos de 30kph (ele a 50kph) e nenhum caminhão passou por cima das minhas pernas (o que para ele também não deixou de ser um pouco de sorte dadas as circunstâncias).
      Bjs

      Excluir
  2. Que coisa, Milton. Eu nem me imagino pedalando em SP, e quando penso em pedalar no sul, lembro dos motoristas bêbados e me dá arrepios só de pensar. Melhoras ao teu amigo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É Deysi... a gente passa por algumas situações complicadas. Eu mesmo com pouca rodagem nas ruas já passei. Quem está exposto mais tempo tem mais riscos ainda. Triste realidade.
      Abração!

      Excluir
  3. Que história... :(((
    Votos de rápidas melhoras.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, muito obrigado. A história não é boa mas as reflexões têm que ser feitas.
      Abração.

      Excluir
  4. Pedalar sempre foi a modalidade que mais gostei. De uns 2 anos pra cá tenho pedalado menos, nesse caso não é por preguiça, é por medo mesmo. Andar dentro de Floripa ficou impossível, prefiro fazer pequenos treinos nos rolo do que me arriscar.
    Sinto falta do vento batendo na cara, mas fazer o que? Ninguém mais respeita nada nesse país...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É verdade Fábio. Tá complicado mesmo pedalar aqui dentro e nas estradas em geral. Na 101 Norte no horário que tenho ido até que não está tão complicado. Pelo menos não aparenta.
      De qualquer maneira é uma reflexão e tanto sobre os riscos do nosso esporte.
      Durante a semana SEMPRE recorro ao rolo e até as transições que costumo fazer na SC401 já talvez pense duas vezes, especialmente durante a temporada.
      Abraço.

      Excluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário, sua opinião, sua crítica, seu elogio, qualquer coisa... procuro responder sempre.

Postagens mais visitadas