Ironman Brasil 2014 - o bom e o ruim

Demorei para escrever sobre o maior evento de triathlon da América Latina ocorrido dia 25 de maio passado. Um pouco em função de demandas de trabalho e da volta à vida normal mas também um pouco em função da polêmica que ficou no pós prova: o vácuo no ciclismo. Estava lendo e vendo bastante coisa sobre isso.

Como vocês estão carecas de saber, cheguei de Frankfurt no sábado final de tarde depois de mais de 24hs de trânsito em aeroporto, etc. Dormi como uma pedra, porém domingo precisava ir a Curitiba resolver umas pendências pessoais (já estava planejado antes das férias). Não me restou outra alternativa que não fosse acordar bem cedo, ir a Curitiba e voltar a tempo de acompanhar pelo menos parte da maratona do Ironman no domingo. 6hs estava na estrada e 10hs estava nela de novo a caminho de Floripa. O esforço valeu a pena, pude torcer para vários amigos que lá estavam e mesmo ficando pouco tempo pude ver vários deles. Além disso passei algumas horas na barraca montada pela Webtreino e revi outros amigos de Curitiba.

Vou começar pela parte boa.

A vitória e segunda colocação dos brasileiros Igor Amorelli e Santiago Ascenço respectivamente. Incrível e gratificante ver esses atletas chegando na frente no "nosso quintal". Mais gratificante ainda é ver a evolução e dedicação do Amorelli que em três anos seguidos chegou em terceiro, segundo e agora primeiro. É a forma mais "clara" de ver que o esforço e a disciplina é que nos levam às glórias. Acredito em dom/talento/destino? Mais ou menos. Nunca fui muito dessa opinião de que alguém nasceu com um dom e não precisa fazer mais nada para prosperar. Acho que podem haver pessoas mais "talhadas" a uma determinada atividade (ou no nosso caso, esporte), porém NENHUM deles vai ter sucesso sem suar MUITO a camisa. Um disciplinado não tão talentoso pode passar um talentoso relaxado, não tenho a menor dúvida disso e essa caminhada do Igor Amorelli nos mostra como isso ocorre. Ele, além de talentoso, é um atleta na concepção da palavra. Foi passando de degrau em degrau até se tornar o primeiro brasileiro vencedor do Ironman Florianópolis. Tem talento, tem mas teve que ano após ano lutar para melhorar e poder vencer seus adversários.

Outra coisa interessante foi o detalhe de termos um melhor nadador, um melhor ciclista e um melhor corredor. Aí a gente vê como é difícil termos atletas 100% completos no triathlon. Praticamente todos têm algo como seu ponto fraco ou algo que conseguem se distanciar dos outros. No caso do IM Brasil 2014 as médias desses três impressionam:

Chicão - melhor nadador com atordoantes 1'13"/100m de pace
Santiago Ascenço - melhor ciclista com incríveis 41,5Km/h de média
Igor Amorelli - melhor corrida com - igualmente incrível - 4'05"/Km de pace

Por essas e outras que esse esporte é fantástico!
 
Igor Amorelli, vencedor do Ironman Brasil Florianópolis 2014. Fonte: globoesporte.com
Deixando a parte boa de lado e entrando, infelizmente na parte ruim.

A polêmica está na internet em blogs, portais e até no Globo.com. Foi grande o número de atletas que usaram artifícios que não poderiam para melhorar seu tempo. O vácuo foi escancarado e isso se vê tanto nos vídeos disponíveis na internet como em rodas de conversa de técnicos, atletas profissionais e amadores. E digo mais, como eu fui de carro para Jurerê enquanto ainda estava acontecendo a etapa do ciclismo, posso confirmar que vi bastante gente andando em pelotão em locais que não era difícil andar separado pela distância regulamentar.

Não vou me alongar muito no assunto, acho que muito já foi falado. Só posso dizer o que costumo falar e muitas vezes me taxam de pessimista, rabugento, etc. Cada vez menos a gente pode confiar no ser humano. O Brasil em especial tem a cultura do jeitinho. Todo mundo sempre quer tirar vantagem em alguma coisa e isso também se reflete agora - de forma mais escancarada - no Ironman. É triste ver isso, ainda mais numa prova dessas em que o objetivo foi completamente desvirtuado. O Ironman é uma prova de superação de limites, algo inventado para que, individualmente, se pudesse ir até onde o corpo quase não aguentasse mais. E agora a gente vê gente que pensa basicamente no seu tempo, esquecendo todo esse espírito do esporte e do Ironman. Não se deseja mais chegar no seu limite, lutar contra seu corpo, alcançar o quase impossível. O que importa mais é chegar na frente dos outros a qualquer custo, mesmo envolvendo trapaça. Não tem outra palavra para definir isso a não ser trapaça.

Eu particularmente, como atleta mediano, fico triste com o ser humano mas vou lá faço minha prova, supero (ou não) meus limites e, apesar de decepcionado, não ligo para os pelotões que se formam no meio do caminho. Eu durmo tranquilo e sei que dei meu melhor cumprindo a regra. Entretanto é triste ver pessoas, que lutaram MUITO e são MUITO fortes, fazerem uma BAITA prova num tempo excelente mas não terem nem chance de disputar vaga para o Mundial em Kona por causa disso. Não estou dizendo que A ou B conseguiria com um tempo X ou Y. O que estou dizendo é que muitos que lutam sozinhos (como deve ser essa prova) estarão sempre em desvantagem em relação aos "malandros".

Que isso não apague o brilho de uma prova tão bonita que é o Ironman. Quando comecei no triathlon, já comentei aqui no blog, fui lá assistir essa prova em Jurerê e me emocionei muito na largada. Na época eu não tinha a menor condição de fazer uma prova daquelas mas pensei: "Que sonho estar aí dentro lutando contra meus limites físicos e mentais, preciso fazer isso". Um ano depois estive lá dentro e competi com a felicidade estampada no rosto. Essa prova é realmente linda e cheia de histórias de superação humana. Que algumas dúzias de desonestos não estragem nosso esporte e nossa prova.

Aproveito também para deixar os parabéns a todos os meus amigos que fizeram e lutaram sozinhos contra todos os seus limites e completaram o Ironman Brasil 2014. Não vou citar todos os nomes aqui para não cometer injustiças caso minha memória me traia, mas eles sabem quem são e tive a oportunidade de vê-los lá em Jurerê.

Comentários

  1. É verdade, amigo, concordo contigo ... A tal desonestidade anda por aí, bem intensa no ser humano, causando inúmeros prejuízos, até no esporte ... Infelizmente, estamos convivendo com isso ... Meu carinho e bons treinos.

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    1. Infelizmente isso está em todas as esferas da nossa sociedade Ivana.
      Que isso não piore com o tempo.
      Valeu. Bjs e bons treinostambém!

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  2. Esse negócio de trapacear é fogo. Tu podes até ver no relógio um tempo "bom", mas lá no fundo tu vais dormir sabendo que não foi bem isso. O que vale no esporte é a superação..se tirar isso, PRA QUÊ??? Abração, Milton!

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    1. Se te falar que até gente cortando caminho na corrida teve, Deysi! Será que esse cara dorme pensando que foi realmente um Ironman? Também não entendo a razão de fazer o esporte/prova se não vai fazer de forma justa e honesta.
      Abração!

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  3. Excelente Milton, relatou as duas provas distintas que aconteceram em Floripa.
    Agora é torcer pra que algo seja feito, principalmente na atitude dos próprios atletas.
    Abraço

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    1. Isso aí meu amigo. Tu sabe que o exemplo que dei ali em relação aos amigos que foram bem mas não foram a Kona foi por tua causa né? Kkkk
      Abração Lean!

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  4. Infelizmente desonestidade no Brasil é uma coisa cultural, isso se vê em todo lugar e é uma pena que parece que não vai melhorar nunca, pelo contrário, cada dia se vê mais coisas erradas e isso desanima.

    O tal famoso jeitinho brasileiro está estragando nosso país de todas as formas...

    Abraço

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    1. É... o famoso jeitinho é um dos nossos grandes males. Não é coisa exclusiva do brasileiro mas aqui é uma coisa muito alastrada. Infelizmente presente em todos os lugares.
      O importante é que sigamos fazendo a nossa parte.
      Abraço!

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  5. Oi Milton.
    Lamentável os fatos ocorridos no IM. Tem gente que faz as coisas a qualquer custo, seja idôneo ou desonesto. Cada cabeça uma sentença. Uma pena. Isso numa prova grande para os homens de ferro. Ainda bem que existe gente que faz por si, pelo próximo, pelo grupo. Eu ainda acredito que existe gente boa, sabe. Não perco as esperanças.
    abraços
    Helena
    Blog Correndo de bem com a vida
    @Correndodebem

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    1. Triste mesmo Helena. Infelizmente isso está presente em todas as esferas da nossa vida e não seria diferente lá. O que é mais triste é que o esporte normalmente seria algo voltado para superação individual, etc. e nesse caso não foi para muita gente.
      Que a gente continue fazendo a nossa parte.
      Abração e boa recuperação para ti.

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