A dor do aprendizado

Quem acompanha meu blog aqui sabe que já passei por algumas dificuldades, seja na vida pessoal, seja nos treinos, enfim. O que mais isso me proporciona é a capacidade de aprender e tirar lições destes episódios. Um treino que não sai certo, um treino que termina com dor, uma impossibilidade de treinar ou competir por conta de problema pessoal, enfim, tudo isso me faz aprender. Nem sempre é fácil mas faz.

Feito o intróito, vamos ao principal.

Antes de mais nada não acho que seja hora de fazer terra arrasada ou ser engenheiro de obra pronta, como aliás uma grande parcela da mídia esportiva costuma fazer ou ser. O assunto, claro é a derrota da seleção brasileira de futebol na semifinal da Copa do Mundo. Não vou entrar aqui no mérito de esquema tático, isso ou aquilo. Isso quem pode falar são os entendidos de futebol, eu sou apenas um palpiteiro. Um daqueles duzentos milhões de técnicos. Queria aqui falar sobre outros aspectos desse jogo e dessa derrota.

Primeiro, o exemplo dos jogadores alemães e da capacidade de seu povo se reerguer em situações de dificuldade. Primeira vez que estive na Europa foi em 2008 e no roteiro estava a Alemanha, Suíça, Áustria e Liechtenstein (de lá para cá estive mais duas vezes em alguma parte da Alemanha). Quem me conhece sabe o quanto gosto de viajar e o quanto eu fico falando quando o assunto é viagem. E mais, quando voltei dessa primeira viagem à Europa em 2008 eu estava maravilhado com a Alemanha. Sua cultura, seu povo, suas cidades, etc. Tudo que eu achei que fosse encontrar na Suíça eu encontrei na Alemanha (não que na Suíça não tenha). O que mais me chamou a atenção lá foi a capacidade de se reerguerem e se reinventarem após as dificuldades. Não é uma nem são duas as cidades destruídas no pós guerra. Ao olhar estas cidades hoje jamais diríamos que foram reconstruídas. A atenção aos detalhes em cada monumento para que ficasse o mais parecido com o original, tudo impressiona. A retidão das pessoas também me impressionou naquela época e também agora em 2014 quando passei novamente por aquele país. Não existe a cultura do jeitinho. Se é A é A. Se é B é B. Ponto. Norma é norma e regra é regra. Tudo isso que falei se viu um pouco naquele jogo de ontem. Em relação a se reerguer, a Alemanha tinha uma grande seleção em 2002, quando perdeu a final justamente para o Brasil. Foi um golpe duro. Em 2006 jogavam em casa e queriam muito vencer a Copa do Mundo. Não foi possível, levaram mais um revés dolorido, porém, desde então se reestruturaram, repensaram o futebol, fortaleceram sua liga, prepararam o terreno. Aos poucos as coisas foram aparecendo e hoje possuem uma grande seleção. Pode ser que não ganhem a Copa mas talvez seja a seleção com grupo mais forte de todas. Não existe um grande talento. Existem bons jogadores e um GRANDE conjunto. E para os alemães esse pragmatismo é fundamental. É a "personificação" da corretude e da disciplina. Aliás, falando nisso, fiquei impressionado com a forma que os jogadores alemães reagiram àquela situação atípica. As comemorações passaram a ser contidas. Não houve UM MOMENTO sequer em que passaram a brincar no jogo. Sempre sérios, corretos, humildes e sem tripudiar sobre um adversário já caído aos seus pés. Nem mesmo quando a torcida começou a gritar olé para cada passe trocado por eles (e nisso eles são realmente MUITO bons). A mesma coisa aconteceu nas entrevistas após o jogo. Havia um sorriso meio amarelo, de felicidade pela vitória e chegada na final, porém algo muito contido e com um sentimento de tristeza pelo nosso povo que sofria de ver aquilo que acabara de acontecer em sua casa. Claro que no vestiário da Alemanha a festa deve sido enorme, porém diante de um povo que sofria tiveram o devido cuidado para que não parecesse desprezo ou humilhação. Eu já era fã da Alemanha (minha bisavó era alemã inclusive), depois que fui para lá fiquei mais ainda, depois de ver as atitudes da delegação aqui no Brasil fazendo a alegria de jovens carentes (doando dinheiro e uniformes para escolas inclusive) sem abrir mão de TREINAR, torcia por eles desde que não enfrentassem o Brasil. Ontem torci para meu país, claro, mas a partir de agora volto a torcer pelos alemães.

E o segundo assunto que queria falar é sobre o Brasil. Fiquei triste com a derrota, lógico, porém ficar triste está longe de chorar ou passar dias triste por causa da seleção. Fiquei triste porque, apesar de ter sido contra a Copa do Mundo aqui no Brasil - desde a época da escolha, diga-se de passagem - agora eu estava no meu papel de torcedor sem perder o papel de crítico do que acho que está errado. A derrota foi a maior da história da instituição "Seleção Brasileira de Futebol". Isso tem um peso. Isso faz com que algumas coisas precisem ser repensadas. Um revés numa semifinal de Copa é normal. Contra uma excelente seleção como a alemã, mais ainda. Entretanto da forma como foi está longe de ser normal. Acompanhei algumas coisas e notava que mais uma vez o Brasil sofreu um pouco com aquela questão de exaltar demais os jogadores. Pouco se treina, tem muita badalação sobre todos. O jogador de futebol, em especial o brasileiro, tem muito o costume de achar que só talento decide as coisas. Nunca esqueço o que o Oscar do basquete, um dos maiores atletas do Brasil, falou algumas vezes. Ele só acertava tanto arremesso porque treinava à exaustão. Até com luz apagada ele treinava. Arremessos e arremessos, condicionou seu corpo a acertar. Só talento não ganha nada, cortes de cabelo não ganham nada, bigodes não ganham nada. O que faz ganhar é TREINO e seriedade. Os alemães tiveram até ontem um dia de folga. Isso mesmo UM ÚNICO dia de folga nesta Copa do Mundo. Em todos os outros, inclusive em pós jogos, eles treinaram. Deveríamos aprender com exemplos como os dos alemães. Claro que não podemos querer implantar a realidade deles na nossa. É uma questão cultural muito maior que futebol. Podem me chamar de pessimista mas eu tenho para mim que o Brasil nunca chegará a ser um país de primeiro mundo. E infelizmente a raíz de tudo está na cultura do nosso povo de querer tirar vantagem em tudo. E isso vai desde o mais simples cidadão até o mais alto escalão da política. O que muda só é o nível mas o que se faz é a mesma coisa. E por essa simples razão acho que viveremos sempre esta realidade que temos. Mas ainda que nesta realidade a gente poderia melhorar muita coisa. Mais uma vez, infelizmente acho que não vai mudar. Nossos "cartolas" se perpetuam no futebol. Ganham rios de dinheiro e pouco se importam com o que realmente deveriam se importar. Temos que parar também com estas mania de que "somos penta campeões, o país do futebol". Tudo bem, temos cinco títulos, mais que qualquer outro país, porém isso é PASSADO. Hoje estamos MUITO longe de outros países em termos de futebol e de jogadores. E quanto a país do futebol, isso é a mais pura BALELA. Em outros países temos o mesmo (ou até maior) nível de fanatismo/gosto pelo futebol que temos aqui. Já presenciei isso pessoalmente e também vejo de muita gente que morou ou mora fora. Temos a mania de achar que no Brasil se gosta mais de futebol do que em qualquer outro lugar do mundo.

Agora é hora de esperar a poeira baixar. Pensar para frente e a longo prazo. O que mais eu desejo é que o Brasil aprenda com os erros desta Copa do Mundo. Que se repense o futebol, sua administração, seu funcionamento. Tudo bem, é sonho eu sei, mas sonhar não custa nada. 


Atualização: Quem puder dê uma lida nesse artigo sobre o futebol na Alemanha. Acho que não preciso fazer nenhum comentário a respeito dele. 

Comentários

  1. A corrupção está impregnada no nosso país desde sempre, infelizmente isso não vai mudar, basta dar uma volta na rua e vc vai ver sempre alguém querendo tirar vantagem de outra pessoa. O brasileiro se acha espertalhão, mas é o mais tolo do mundo, porque vende voto. Torce para a seleção mas quando ela perde na mesma hora chuta e torce contra. Também acho que jogador no Brasil é estrela e se engrandece de tudo, só quer farra, mulheres e cerveja, não tem seriedade nisso tudo.
    E o mais importante que vc falou, eles não pisaram na cabeça de quem já está caído, os argentinos fazem isso, eles são sujos, eles tiram onda até de jogador machucado e por isso eles são odiados no mundo todo.
    Concordo com tudo que vc falou sem mudar uma linha...

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    1. Valeu Fábio! Isso aí, pensamos de forma parecida!
      Abração.

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  2. Pois é Milton, infelizmente essa é a realidade do nosso país. Preparamos uma grande palhaçada e fomos mais uma vez, da forma mais descarada, humilhados pela classe política brasileira, corrupta e aproveitadora até o último centavo, que aliada aos corruptos profissionais da FIFA, deitaram e rolaram em conjunto na terra do carnaval.
    Quanto à derrota, só mesmo a mídia interessada ($) vendeu a ilusão de que ainda seríamos superiores. Mas fez-se o justo e o mais provável, mesmo que os 7x1 sejam absurdos em qualquer situação.
    De fato, a derrota esportiva foi o reflexo da nossa derrota cultural perante a seriedade dos alemães. Porém, mesmo assim descreio totalmente num aprendizado. Continuaremos na mesma tocada, vivendo dessas mesmas pequenas ilusões, chorando e depois "tocando a bola em frente".
    Só fico triste por saber que o próximo passo é detonar com os atletas olímpicos brasileiros, que daqui há dois anos estarão com uma carga de medalhas "obrigatórias", sem ao menos terem condições de treinamento ideais para isso. Mais uma vez o "talento" não dará conta, e veremos um festival de crucificações de gente que, diferentemente da maioria dos jogadores da seleção, leva o que faz muito a sério, mesmo sem o dinheiro pra colocar um brinco de diamantes da orelha.

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    1. Grande Lean. Também não acredito em mudanças e em aprendizados. Nós já tivemos mais de 500 anos e não aprendemos praticamente nada.
      Quanto a essa questão do ciclo olímpico, tu tocou num ponto bem interessante e que merece um post para o futuro, certamente. Nós que somos míseros atletas amadores sabemos o quão difícil é ser atleta de outros esportes que não os "populares". E mais uma vez teremos inúmeros atletas tendo que fazer jornada dupla ou tripla para representar um país que não dá a menor condição para eles. E é a vida que segue.
      Abração!

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  3. Milton, EXCELENTE post!!! Nem tenho muito o que falar, apenas destacar: "Só talento não ganha nada, cortes de cabelo não ganham nada, bigodes não ganham nada. O que faz ganhar é TREINO e seriedade." Disse tudo. Um abração!!!!!

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    1. Bah, valeu Deysi! Obrigado. São simples pensamentos que foram saindo. Kkkk.
      Abração!

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  4. Muito bom o post, Milton, concordo plenamente como você, como já conversamos anteontem sobre a derrota do Brasil, mas também pela excelência do futebol alemão.
    Concordo muito quando você fala que essa história de país do futebol é balela, não se pode misturar 5 títulos mundiais a país do futebol, nosso futebol aqui hoje está visivelmente ruim, todos nossos bons jogadores estão em outros países representando grandes e riquíssimos clubes.
    No mais, nos resta torcer para que o Brasil acorde e abra os olhos para os erros e problemas, não digo nem dos erros e problemas do futebol, digo dos problemas e erros cotidianos, na política, segurança, educação. Vou parar essa lista por aqui, senão não vai caber na caixa de comentário. kkkk...
    Beijo,
    Dani.

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    1. Legal Dani, obrigado. É isso aí que penso também. Se formos fazer uma lista o negócio vai ficar gigante, infelizmente. Kkkk
      Bjs.

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