Relato de uma Maratonista - por Juliana Pacheco Guimarães

Hoje vou abrir espaço aqui no blog para o relato de uma amiga que correu a maratona do Rio de Janeiro em julho. A Juliana (@julipagui) é uma grande batalhadora e, de uma forma até meio "louca", superou lesões para conseguir concluir essa prova que era um sonho que ela tinha. Não tem muito o que falar, apenas deixar o relato dela para que vocês leiam e se emocionem como eu me emocionei.

Na virada do ano de 2013/2014 naquelas projeções e desejos para o ano que se iniciava, mentalizei um desejo que já queria há tempos que era correr uma maratona. Como corria há 3 anos, e já tinha no currículo diversas provas de 21k, achei que poderia encarar esse desafio tranquilamente.
Claro que não comentei essa loucura com ninguém senão me chamariam de louca!
Passaram meses até que num pré-carnaval do grupo de corrida, eu e mais dois "malucos" dissemos num papo nada normal: Vamos correr a maratona do Rio? Kkkk.. E ali fizemos um pacto que correríamos a maratona em julho... isso era no mês de fevereiro.
No dia seguinte fiz minha inscrição, e disse agora ferrou, terei que encarar!
Do dia da inscrição, para o dia oficial do início dos treinos, ainda tive tempo para assimilar minha "loucura" e com ela meus amigos também loucos concluíram suas inscrições e fizemos ali um elo de cumplicidade, amizade e também de respeito ao limite do outro.

Os treinos começaram e percebi que a coisa era mais séria do que pensava. Treinos intensos. De subidas e descidas. Treinos longos durante a semana, e mais longos ainda aos sábados.
Abdiquei de saídas, de dormir até tarde, de ficar muitas vezes com minha família para ir treinar. E lógico agora me chamavam de louca mesmo! Amigos que não correm, perguntavam: você não faz mais nada? Só corre! Realmente eu só corria!

Passou-se um tempo do início dos treinos, saí para correr mais cedo, e sozinha, em um local com quase ninguém, senti minha panturrilha. E como sou teimosa, continuei o treino, e de uma hora para outra, como não quis parar, minha panturrilha me parou! Senti uma dor que nunca havia sentindo antes! Fiquei apavorada! Voltei para o carro chorando, mancando e com muitas dores.
Diagnóstico: Estiramento de panturrilha. Suspendi os treinos, durante 15 dias, para fazer fisioterapia.
Fiquei péssima! Mas não desisti!

Passou o tempo de recuperação da lesão, voltei aos treinos igual a um "Forrest Gump". Rsrsrs...
Faltavam 2 meses para a maratona!

Após 1 mês, veio o treino mais temido, 30k. Mal dormi na noite anterior e a ansiedade era grande! Parecia que tinha chegado o dia da maratona. Eu e Devilson (parceirão de treino) começamos o treino às 6:00 e o que parecia um terror, foi super suave!! Kkkk..

Já na semana seguinte, vieram os treinos da semana. Lembro que fiz somente 1 treino, de 12k e deixaria para fazer o longo de 24k no sábado.
No sábado decidimos realizar o percurso fora da Lagoa da Pampulha. No início do treino senti a lateral do meu joelho, até então a dor não era para mim identificada como joelho. Então continuei o treino normalmente!
Nesse dia terminei o treino mal, com dores. Mas sinceramente não me preocupei porque a dor passou rápido.
Já no treino da semana, enquanto corria, senti muitas dores na lateral do joelho direito de novo! Fiquei muito assustada, pois lembrei o que tinha acontecido da outra vez. Dessa vez parei o treino, e voltei preocupadíssima com o que poderia ser. Isso já era início do mês de junho.

No dia seguinte procurei um ortopedista e logo no diagnóstico da ressonância ele disse: "xii acho que você não poderá correr sua maratona não.". Eu olhei para ele com cara de choro e disse: "que isso Dr está louco? Já fiz minha inscrição!". Ele se virou para mim e disse: "você tem a lesão no trato ílio tibial, e inflamação no menisco!". Quando ele disse "menisco" comecei a chorar e falei terei que operar né? rsrsrs.. ele disse não! Mas terá que parar para desinflamar o menisco decorrente do trato ílio tibial. E a maratona não aconselho você a fazer!

Chorei igual a criança, ou pior! Fiquei péssima!!
No dia seguinte, procurei outro ortopedista na área de esportes e esse disse a mesma coisa. Não poderá correr a MARATONA! Chorei de novo, e voltei para casa pior ainda!

Então a partir daquele dia resolvi ler artigos sobre o tal trato ílio tibial, famoso "joelho de corredor", e sua causa. E claro que eu me enquadrava perfeitamente no perfil de atletas que poderiam ter esse tipo lesão: excesso de treinamento em espaço de tempo curto, tipo de pisada pronada, (até então nem sabia qual era minha pisada), falta de alongamento e fortalecimento. Nesse época havia abandonado a musculação para focar somente na corrida.. ERRADO!!

Fiquei 20 dias, só com fisioterapia que para mim era um saco, pois alongar é muito enjoado! E fortalecimento na musculação com meu personal top Alessandro Maia. Nessa época direcionamos o fortalecimento para uni lateral, para que se tomasse maior cuidado com a lesão.

Nesse tempo, me senti muito só. Faltava a socialização da corrida, mas ainda bem que os meninos da maratona não me abandonaram e me ligavam sempre que podiam.

Passou um tempo a fisio liberou correr na esteira 7 k, depois fui para a rua e corri 10k, e fui treinando o que dava, porque com as viagens a trabalho os treinos ficaram muito escassos.
Faltavam 15 dias para a prova e eu tinha convicção que não correria a maratona, mesmo não sentindo mais dores! Como estaria no rio na semana da corrida, falei vou fazer a meia (21K), que pelo menos não perco a inscrição.
No dia que peguei o kit, comecei a pensar caramba já cheguei até aqui, o pior já havia passado. Então Disse para mim mesma:vou correr a maratona! Se eu conseguir 16k que era o máximo que já tinha feito depois da lesão, já serei uma vencedora! Se eu chegar aos 21k serei um a campeã.
Alguns amigos disseram que era louca, pois vinha de uma lesão muito séria, que eu poderia machucar mais! Outros loucos como eu, disseram vai lá e busca a medalha que você consegue!

E eu falei vou correr!! Seja o que Deus quiser..
Na noite anterior estava ansiosa, chorei muito a noite e pedi a Deus que me ajudasse naquela decisão até então maluca de correr!
Dormi às 8:30 da noite e só acordei as 4hs para ir para a prova! Nem jantar eu jantei!
Saí da casa da minha prima abaixo de chuva 5h da manhã Táxi no Rio aquela hora da madrugada chovendo era artigo de luxo! Eu precisava ir para o local onde estavam os ônibus que levariam todos os atletas para a largada. Nenhum taxi aparecia até que um "santo" surgiu na rua e me levou rapidinho. Foi minha sorte porque consegui encontrar com meu parceiro de treino Devilson que estava indo em direção aos ônibus.
Do aterro do Flamengo ao recreio, onde seria a largada. Nem sei o que conversei, estava em estado de choque! Rsrs..

Quando chegamos eu pensei agora não tem volta mais! O local estava lotado de atletas e percebi a diversidade de pessoas que tinha para a maratona. Conheci na fila do banheiro ,algumas pessoas que retrataram lesão antes da maratona. Aquilo pode ser bobagem mas me senti tão aliviada de saber que eu não era tão louca assim!! Kkkk.
Dali demos uma volta, e graças a Deus encontramos com o Mario e Sanzio! Agora sim o quarteto maratonista estava completo.

Nós posicionamos para a largada. Demos as mãos para uma oração. Nos abraçamos e junto com o hino nacional, choramos de emoção! Foi emocionante demais!!

Foi dada a largada, desejamos boa prova e pé na tábua! Foi combinado que cada um iria no seu pace.
Logo perdi os meninos no meio da multidão! E dali em diante pensei, agora será eu e Deus!!

Do início da corrida até o 16k passou muito rápido que nem vi o tempo passar! Quando olhei para o relógio, vi que meu Garmin não estava funcionando. Nem acreditei, iria correr a maratona sem marcação. Achei até melhor, porque desliguei de pace e tempo!
Quando passei pelos 21k novamente trabalhei minha cabeça, estou na metade, falta pouco!

No 23k resolvi me filmar (rsrs) uma forma de incentivo para dizer que estava bem. E foi ali do alto do viaduto que vi a beleza do Rio, e agradeci a Deus por ter conseguido chegar até ali! E chorei!!!

 
Já no 27k parei para ir ao banheiro, pois lembrei que dali em diante no percurso seria a subida da favela do Vidigal e não teria banheiro. Quando cheguei no posto da praia o banheiro era pago. Falei, ferrou não tinha trocado, e o cara não queria trocar o dinheiro. Mas logo atrás de mim veio uma menina, que falou ei eu pago para você! Agradeci e pensei como corredores se ajudam, mesmo sem se conhecer!

No 30k já quase no Leblon me filmei de novo. Não tinha dor no joelho, somente tinha começado a sentir dores na lombar. O meu joelho até então estava quietinho!!Ufa!!

Já em Ipanema no km 32 quando os atletas passavam, muitas pessoas já nos aplaudiam! Nunca tantos aplausos e vibrações positivas me impulsionaram! A energia tão contagiante que parece que tudo que dói, some! E isso dá mais força para seguir em frente!
Depois no km 34 o cansaço começou, e as vezes quando olhava para baixo ficava meio tonta. Respirei fundo e dizia para mim: Falta pouco Juliana! Vai que você consegue!!


Dali pra frente se o emocional não estiver bem a gente pira porque muitos atletas começam a cair, machucar, parar!
Vi pessoas com cãimbras, outras desmaiando e sendo levadas pela ambulância, pessoas andando, alongando, chorando. Desesperador!
No 35k vi um casal bebendo Coca Cola. Já tinha lido sobre maratonistas que tomam Coca Cola a partir do 30k e não lembrava o efeito positivo que tinha. Então corri do lado deles, eles me explicaram o efeito positivo da Coca Cola (cafeína e açúcares) me deram um pouco, conversamos mais e desejei sorte para o casal!

No 36k meu celular parou de tocar música e para quem me conhece sabe que eu preciso correr com música, me ajuda muito! Enfim o jeito foi esquecer que não tinha mais música e ir prestando atenção nas pessoas que ali estavam. E foi ótimo para eu escutar minha respiração e passadas dos atletas! Uma forma de distrair para aquilo que doía que era a lombar!

No 37k lembro que alguém gritou falta pouco! Vocês são vencedores, parabéns maratonistas! Comecei a chorar!!
No 38k a chuva resolveu cair com força! E dali para frente, o tênis e as pernas pesaram mais Eu só tinha em mente.. está chegando!!
E não chegava...e não chegava!


No 39k pessoas debaixo de um temporal aplaudiam, e gritavam! Pareciam que nos conheciam de tanto que vibravam! Chorei mais ainda!! Acho que os últimos km foram de lágrimas!
No viaduto em Botafogo, visualizei bem de longe a chegada e disse está quase meu Deus!!
Do 40 ao 41k deu branco. Chovia muito! Eu só queria chegar! Vi algumas pessoas caindo de dor.. Não acreditava que estava acabando. Nessa hora acelerei! E que quando faltavam 500m outra pessoa gritou força gente está acabando! E foram os 500 m mais longos da minha vida.
Foi quando passei pela linha de chegada sem acreditar que tinha acabado! Olhei para os lados e não vi ninguém conhecido. Desencontrei de todo mundo..

Fui pegar a medalha chorando. Como chorei! Quase afoguei porque chorava e chovia muito! Kkk.. Continuei andando sem acreditar! A chuva não dava trégua! Foi quando sentei no meio fio e chorei mais ainda!
De repente um cara surgiu do nada e disse: ei parabéns você é uma maratonista! Eu levantei a cabeça olhei para ele, nos abraçamos. Abracei o cara como se o conhecesse há anos! Rsrsrs.. Ficamos ali conversando um tempo. Tiramos fotos! E depois nos despedimos! Nunca mais esquecerei esse moço!
Foi aí que a ficha caiu que eu havia conseguido. Tinha corrido 42,195m. E meu joelho? Nada de dor!

E hoje paro para pensar em tudo, por isso resolvi escrever e divulgar: Ainda bem que fui louca e corri a maratona, porque nunca saberia se conseguiria se não tentasse!
Eu faria tudo de novo! Rsrs.. Mas claro com planejamento e sem lesões! Mas o fato é que VENCI!! Venci a mim mesma, que fui capaz de superar duas lesões e ainda realizar um sonho.
Maratona não e fácil! Mas não e impossível!!

Todos podem correr uma maratona, mas e lógico que é necessário um acompanhamento de um profissional para que todas as etapas do treinamento sejam feitas com consciência!
Eu fui louca sim! Mas e essa insanidade me deu a certeza que sou mais FORTE do que eu imaginava! Eu me superei!
Saldo da prova: dores musculares, duas unhas do pé roxas e a vontade de começar tudo novamente!

Que venha outra maratona para 2015.

Juliana, apesar de toda a loucura só posso te dar os parabéns por ter lutado tando para realizar teu sonho. A história é realmente emocionante! Que venham muitas e muitas maratonas na tua vida!

Comentários

  1. Jú, queridona! Sempre que leio esses relatos fico me colocando no lugar e me emociono muito... mas o teu foi demais! tô sonhando com a minha tbém #oremos

    Parabéns, tu é guerreira demais.
    Valeu, Milton.

    Beijos grande.

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    1. Legal a história né, Tati!?
      Valeu obrigado. Bjs.

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    2. Valeu Tati. Também choro de reler, porque a história volta toda na cabeça! Vc irá conseguir sim, querida! confia , treine e vá a luta. bjs

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  2. Noooossa, só não chorei porque estou no trabalho! Parabéns Juli! Com certeza no dia da minha prova, irei lembrar dessa história.
    Demais!

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  3. A Juliana é muito guerreira!!! Parabéns a ela!
    Só te digo uma coisa Milton, admiro muito quem corre maratona, mas não invejo nem um pouco. Ainda não vejo correndo toda essa distância, embora nós já tenhamos conversado sobre essa hipótese, mas o fato é que depois dessa minha lesáo na lombar serei muito mais precavida nos cuidados com meu corpo e farei só o que ele permitir!
    Ah, quase chorei de emoção lento o relato dela. Não tem como não se emocionar, né?
    Beijo,
    Dani.

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    1. É mesmo, Dani! Demais o relato né?
      Quanto à maratona, é como já falamos. Eu pensava bem assim também e no fim, com o tempo a gente vai indo e vendo que o corpo aguenta. A mente leva e o corpo aguenta desde que feito da forma certa. Um dia, se tu quiser tu vai lá e faz.
      Bjs.

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  4. Grande experiência a da Juliana... e excelente relato.
    Vlw por compartilhar Milton!

    E vc, progredindo? Vi umas corridas lá no GConnect... q venha o Challenge então! rsrs

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    1. Muito legal né Ricardo?
      Tá indo cara... ainda bem difícil correr mas tô tentando recomeçar com acompanhamento médico e fisioterápico. Vamos ver se o troço anda.
      Abraço parceiro!

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    2. Torcendo pela sua recuperação plena na corridas!
      Cara, reconheço q sou meio frouxo com as corridas... rsrs... a natação e a bike fluem bem, mas na corrida o impacto/desgaste é grande em mim. Acabo sendo ultra conservador nesta modalidade... tenho um baita receio de encarar lesões como as q os amigos têm enfrentado... achar esse 'fine tune' (performance x segurança) não é fácil, principalmente pra quem está começando nas longas (eu).
      Grd abraço!

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    3. Valeu meu amigo, muito obrigado. De fato a corrida é o que mais judia. A gente tem que ir identificando o que pode e o que não pode fazer. Também saber o quanto estamos dispostos a arriscar, isso faz parte.
      Abração!

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  5. Respostas
    1. Achei incrível a loucura dela, Fábio. Kkk
      Abraço!

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